Conserto No Coração Do Mundo

Tem pai talentoso pra tudo que é tipo de conserto: de prendedor de cabelo à máquina de pentear macacos. Sai debaixo do carro cheio de graxa e não sobra um só parafuso fora do lugar. Que prodígio!
Tem outros, no entanto que passam ao largo dessa história de conserto: saem debaixo do carro, cheios de graxa, com meia dúzia de parafusos sobrando na mão.

Pois é: prodígios! Esses aí, a gente já sabe: a batedeira pifa, a mãe reclama que tem que fazer o bolo, fala pro pai consertar a batedeira - e que delícia que fica o bolo de chocolate batido à mão pelo pai! O chuveiro elétrico queima e a gente toma banho frio a semana inteira até o porteiro poder vir ver o que que há; estraga a tomada do ferro e o pai leva pro autorizado. Aliás, levar pro autorizado é do que ele mais gosta: tudo volta de lá funcionando direitinho.

Ele tem boa vontade: acerta o pêndulo do relógio antigo e deixa o cuco rouco de marcar a meia hora a cada cinco minutos.
Mas um pai como esses encontra também a sua hora de glória: conserta toda noite a coberta do filho na cama, se ajeita do lado dele, arruma a voz na garganta e começa a contar histórias.

Consertado com a vida, o menino dorme, sonhando com o dia seguinte: o pai às voltas com consertos desarranjados, aparelhos sem funcionar e as histórias que deverão funcionar direitinho, na hora do sono: "Era uma vez um garoto que não queria crescer para não ter que fazer conserto, porque ele queria ser músico e tocar numa orquestra famosa".

- Pai, Peter Pan não é assim. Você enguiçou a história!

- É mesmo? E agora? Como é que eu faço pra consertar?

- Deixa pra lá. Conserta não, pai. Conta assim mesmo que tá gostoso...

Nilma Lacerda

 

 

 

 

 

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